Governo Bolsonaro quer Elon Musk produzindo chips enquanto tenta fechar o Ceitec
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O Governo Bolsonaro convidou Elon Musk, um dos homens mais ricos do mundo, para instalar no Brasil uma fábrica de semicondutores e atender a demanda global represada por chips e as próprias empresas de Musk. Entre elas a SpaceX, a Tesla e a Starlink.
O movimento do ministro das Comunicações, Fabio Faria (PSD-RN), provocou polêmica e expõe mais uma contradição do executivo federal que, sob orientação do ministro da Economia, Paulo Guedes, tenta fechar o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), com sede no Rio Grande do Sul, sob a alegação de que não é rentável.
Vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), o Ceitec é o único fabricante de semicondutores da América Latina e integra o grupo dos dez únicos que têm certificação para a produção de chips para passaportes no mundo.
Em setembro passado, a estatal ganhou uma sobrevida. O Tribunal de Contas da União (TCU) mandou paralisar o fechamento da empresa decretada em junho por Bolsonaro. O TCU solicitou maiores informações por considerar frágeis as justificativas do governo federal para a descontinuidade da estatal. “Os motivos que conduziram à liquidação da Ceitec não se sustentam, carecendo de maior fundamentação, pois se apoiaram em análises que não ponderaram relevantes perdas e dispêndios de recursos públicos como consequências imediatas desta linha de ação”, disse o ministro Vital do Rêgo, revisor da matéria no órgão.
Indústria estratégica
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“Encerrar as atividades do único produtor de semicondutores da América Latina vai na direção contrária do que é absolutamente necessário, ter uma política coerente de Estado, de longo prazo, de produzir semicondutores internamente, formar mão de obra que possa projetar chips, produzir chips”, avalia o vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Paulo Artaxo. “São poucas as indústrias tão estratégicas para qualquer país hoje como a de semicondutores. O campo de atuação da estatal será cada vez mais estratégico em nosso planeta”.
Artaxo destaca que a crise de demanda pelos produtos dessa indústria trás oportunidades que não podem ser desprezadas por um país, em especial os em desenvolvimento como o Brasil.
Segundo o vice-presidente da SBPC, ao invés de incentivar o investimento de uma fábrica de Musk no Brasil, o correto seria o estabelecimento de uma política nacional com uma visão de longo prazo, de desenvolvimento. “Uma coisa é se instalar uma fábrica e trazer os chips prontos, embalar esses chips e os exportar. Isso não traz conhecimento adicional nenhum para o país”, reflete.
Sobre o caráter estratégico da indústria de semicondutores, o professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Uallace Moreira, registra que o setor é altamente subsidiado no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, o presidente Joe Biden está destinando U$ 52 bilhões para incentivar a produção de semicondutores no país. “Mas, no Brasil, o complexo de vira lata diz que não pode e tem que fechar o Ceitec”, ironiza.
Proposta esdrúxula
Para o jornalista econômico Luiz Nassif, o modelo de Paulo Guedes para o encerramento das atividades da Ceitec “é um primor de manipulação para negócios obscuros”. Nassif informa que o centro tem uma área de desenvolvimento de produtos e outra de fabricação de produtos. A fábrica tem equipamentos com o tamanho exato para os novos chips da tecnologia 5G.
O jornalista considera esdrúxula a proposta de Guedes para o encerramento da Ceitec . “Vende os equipamentos da fábrica. E transfere a área de projetos, com todos os cientistas envolvidos, para uma fundação sem fins lucrativos. Tudo isso sem chamar a atenção de ninguém, sem chamamento público, sem divulgação ampla”, denuncia.
Para Nassif, o resultado é óbvio. Guedes fecha a empresa alegando que não é rentável e “um esperto qualquer adquire a fábrica pelo preço dos equipamentos – não do conhecimento acumulado, e mantem os funcionários. Todo o valor intangível – conhecimento, métodos de produção, patentes – se perde. Depois, vai até a tal fundação e recontrata os engenheiros ali acantonadas. Isso se as grandes multinacionais do setor já não tiverem levado embora”.