Camelos e a invenção do Brasil
Foto: Renato Parada
No livro Catorze camelos para o Ceará – A história da primeira expedição científica brasileira (Todavia, 2021, 288 p.), o jornalista gaúcho Delmo Moreira reconstitui, à base de muita pesquisa e contextualização, uma aventura épica recheada de pioneirismo, tragicomédia, burocracia, traições e escândalos – com uma narrativa que investiga as origens de boa parte dos problemas do Brasil contemporâneo, como o racismo.
“A nossa incapacidade de apoiar a ciência e a pesquisa vem desde lá”, suspeita. Para o autor, sempre que olhamos de perto um acontecimento do século 19, vem uma sensação de atualidade, de coisas bem conhecidas. “Ali, o nosso país foi sendo inventado como nação. O problema é que grande parte da agenda ficou incompleta, com desafios que até hoje não superamos. O maior deles é o que fazer com 300 anos de escravidão”, afirma o jornalista, que tem passagens pelas principais redações do país.
Uma expedição improvável
Foto: Arquivo Nacional
O ponto de partida deste vigoroso retrato sobre as mazelas das origens do Brasil é o inusitado desembarque de camelos no cais de Fortaleza, na manhã ensolarada de 18 de junho de 1859. Na praia, uma comitiva de políticos e cientistas acompanha o içamento dos animais, que chegam saudáveis ao Brasil depois de uma viagem abaixo de tempestades por 34 dias desde Argel, capital da Argélia.
A ideia era aclimatar os dromedários no estado, reproduzi-los e usá-los para substituir as mulas de carga, em uma tentativa de aproximação científica com a França em um momento de projeção do Império no cenário político mundial. Assim começava a expedição patrocinada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) para registrar a fauna, a flora, elementos da topografia e os hábitos do país.
Capa: Reprodução
A expedição, do Rio de Janeiro para o Nordeste e Norte do Brasil, foi capitaneada pelo engenheiro e mineralogista Barão de Capanema, o botânico Freire Alemão e o poeta e etnólogo Gonçalves Dias, autor de Canção do Exílio e de I-Juca-Pirama. “A história de vida dessas personalidades, brilhantes, contraditórias e muito diferentes entre si, foi tão importante para a narrativa quanto as viagens. Entender o mundo deles, o lugar de onde vinham, os conhecimentos que dispunham, as expectativas que levavam. Compreender melhor aquele tempo ajuda a compreender melhor aquela história”, destaca.