CULTURA

Movimento contesta demissão de Dilmar Messias do Theatro São Pedro

Artistas e produtores da cena nacional e local manifestaram apoio a Messias, demitido da Direção Artística do Theatro São Pedro no começo de setembro
Por César Fraga / Publicado em 21 de setembro de 2023
Movimento contesta demissão de Dilmar Messias do Theatro São Pedro

Foto: Débora Rodrigues/Divulgação

Dilmar Messias, 75 anos, foi demitido depois de nove anos no Theatro São Pedro

Foto: Débora Rodrigues/Divulgação

A demissão de Dilmar Messias da direção artística do Theatro São Pedro no início de setembro pelo presidente da Fundação Theatro São Pedro (TSP), Antonio Hohfeldt, provocou comoção na classe artística e gerou um abaixo-assinado que protesta e cobra explicações da secretária de Cultura do Estado, Beatriz Araujo, sobre as motivações do desligamento.

“Depois de eu quase completar nove anos de casa, o presidente da Fundação Theatro São Pedro, o professor Antônio Hohlfeldt, me chamou na sexta-feira dia 1° de setembro e me disse que a partir de segunda-feira, 4, eu não precisaria vir mais. A explicação do porquê foi esdrúxula, pois ele disse que era uma decisão do Palácio, que a partir de agora o governo queria um Diretor Artístico que cantasse recursos”, explica Dilmar.

Ele se diz ainda surpreso com o ocorrido. “Perguntei à secretária de Cultura Beatriz Araujo se isto procedia, se eu estava demitido e se a razão era esta mesma. Ela me disse que era uma decisão do presidente da Fundação e que ela não poderia interferir”.

Enquanto conversava com o Extra Classe, Messias revelou que recebeu um telefonema de solidariedade do ex-secretário da Cultura, Vitor Hugo e que aguarda ser recebido pela secretária da Sedac, Beatriz Araujo.

O Núcleo de Cultura do MDB também se posicionou em favor de Dilmar em carta assinada por Deodoro Gomes e Camilo de Lelis. Segundo a carta, além de considerar a demissão “uma atitude imoral” pela trajetória do artista, “também desestabiliza emocionalmente”, pois pondera que Messias aos 75 anos, há dois luta contra um câncer na próstata, e que a decisão o afeta também financeiramente, prejudicando o tratamento.

O abaixo-assinado é organizado pelo Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões no Estado do Rio Grande do Sul (Sated) em documento que classifica como “intempestiva” a saída do ator e diretor gaúcho do TSP.

Luciano Fernandes, presidente da Sated invoca o próprio currículo de Messias como justificativa para o abaixo-assinado.

“Estamos mobilizados pela experiência de trabalho dele, por tudo que ele já contribuiu com as artes cênicas; todos os circenses que aprenderam e tiveram conhecimento no Circo Girassol, que era dele; por todos espetáculos que dirigiu. Por ser ex-presidente da casa do artista riograndense; ex-presidente do Sated/RS; por ter representado o Sul como jurado de circo da Funarte; por ter o know how que necessita para lidar com a diversidade das artes”, elenca.

Para Fernandes, “parece um desmonte, pois tiraram um cargo artístico e tiraram os técnicos”, completa.

Artistas e produtores da cena nacional e local manifestaram apoio à Messias, entre eles, Marcos Breda, Paulo Beti, Cristina Pereira, Déborah Colker, Luciano Alabarse, Roberto Oliveira, Zé Adão Barbosa, Zé Victor Castiel, Antonio Velleroy, Thedy Correa, Marcos Borghetti, Eleonora Bettiol Prado da Silva, entre centenas de artistas, técnicos e público em geral.

Dilmar Messias respondeu pela direção artística do Theatro São Pedro por duas gestões consecutivas, de 2015 a 2023, período em que foi responsável por uma agenda variada e considerada de qualidade, tendo promovido mudanças significativas na organização, transparência e diversidade do acesso à agenda do TSP.

Conhecedor da cena teatral gaúcha, ampliou a participação de artistas e grupos locais, bem como valorizou importantes eventos como o Porto Alegre em Cena, Porto Verão Alegre, Festival Internacional de Dança. Foi responsável pela criação e pela curadoria de projetos como Mistura Fina, Mostra Pirlimpimpim de Teatro, Gestos Contemporâneos, Festicri e as feiras na Praça do Multipalco. Também criou o Prêmio Eva Sopher.

De acordo com a titular da Sedac, Beatriz Araujo, via sua assessoria, as fundações – como o Theatro São Pedro – ligadas à Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) têm autonomia administrativa e financeira. Diferente dos servidores públicos concursados, cargos em comissão não têm estabilidade. Por este motivo, a secretária Beatriz Araujo vê com normalidade a ocorrência de mudanças nas instituições. Ela destaca ainda que “a decisão não deprecia e nem desconsidera a relevância do trabalho até aqui desenvolvido por Dilmar Messias”.

O Extra Classe fez contato com o presidente da Fundação TSP Antonio Hohfeldt, que está em férias na Europa e ele justificou a demissão como fazendo parte de uma reestruturação.

“Com as obras resultantes do investimento de R$ 7,5 milhões e meio do Governo do Estado, que incluíram a entrega do Teatro Oficina Olga Reverbel e toda a infraestrutura dos pisos 1, 2 e 3 do Multipalco, praticamente triplicamos, a partir de março, nossas atividades”, explica

Segundo Hohfeldt, além de toda a agenda artística que oferece o TSP, o Teatro Oficina, o foyer do teatro, a Sala da Música e a Concha acústica, ampliamos as atividades de formação artística: ONG Sol Maior , orquestra do teatro, orquestra jovem do teatro, escola de ópera, curso de teatro e, a partir de outubro, cursos variados para a comunidade em geral e para diferentes segmentos artísticos.

“Some-se a inclusão das atividades do IEACEN, mais os editais de dança para grupos de Porto Alegre e grupos de teatro do interior. Tudo pode ser devidamente conferido em nossa página. Tudo isso exigiu uma reestruturação da área de Programação, ampliada enquanto Programação, Elaboração de projetos e captação de recursos. A FTSP não se limitará a ser intermediadora entre o produtor/artista e o público, o que continuará fazendo, mas vai ser mais propositiva e inovadora. A Fundação crescerá ainda mais com a inauguração do teatro italiano, no segundo semestre de 2024. É apenas isso. Somos todos, incluindo eu, funcionários públicos. Trabalhamos para o público, dentro de uma perspectiva de melhorias constantes. Por isso, não há lugares cativos. Busca-se colocar, em cada lugar, aquele que possa melhor contribuir com estes objetivos”, justifica.

Hohfeldt acrescenta também, que a UERGS, com os cursos de teatro, música e dança, estão ocupando espaços no TSP.

“Ou seja, estamos constituindo uma política pública proativa que visa devolver ao público o dinheiro público ali investido, conforme orientações do Governador Leite e da SEDAC, através da Secretária Beatriz Araujo”, conclui.

 

 

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