A relação econômica entre os Estados Unidos e a América do Sul
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Foto: Embaixada dos EUA no Brasil/ Divulgação
“O principal objetivo de Trump é que o seu país volte a ser a principal economia do mundo, o que significa recuperar a liderança industrial global que foi perdida para a China – com outros países do Sul global também a serem vistos como rivais”
Foto: Embaixada dos EUA no Brasil/ Divulgação
Tal como aconteceu durante a sua primeira presidência, a América Latina é vista como região crucial no projeto global de Donald Trump. Durante o primeiro governo Trump, a retórica de confronto com a China, a rusgas com os europeus e a covid-19 terminaram por restringir as suas ações na região, apesar desta ser uma parte essencial do seu objetivo “América em primeiro lugar”.
Deixando de lado as formas de tratamento – mais bruscas ou suaves; mais violento ou pacífico – Trump não foge à regra entre os presidentes estadunidenses ao avaliar que, fundamentalmente, a América Latina é um espaço que deve servir os interesses do seu país.
O principal objetivo de Trump é que o seu país volte a ser a principal economia do mundo, o que significa recuperar a liderança industrial global que foi perdida para a China – com outros países do Sul global também a serem vistos como rivais. Implicitamente, pretende-se que isto seja alcançado preservando a visão social neoliberal das últimas décadas de extrema concentração da riqueza interna nos Estados Unidos sob o domínio de grandes corporações e bancos internacionalizados.
Para isso, a América Latina se apresenta como um espaço econômico crucial para a recuperação econômica e industrial dos EUA: mão de obra abundante e barata, fonte de matérias-primas essenciais, mercados externos para sua produção e oportunidades para investimentos reais e financeiros lucrativos, pois também é basicamente sujeita a hegemonia do dólar.
Para sua segunda presidência, Trump já deixou claro que o seu caminho será o mesmo. O seu foco é a economia americana, embora os meios possam não ser econômicos. A imprensa e os analistas já destacam o carácter fortemente belicoso e militarista dos nomeados para os principais cargos da política externa. Na América Latina destaca-se a hostilidade com Venezuela, Cuba e Nicarágua, com menções ao Haiti, Peru e Brasil.
Esse tom mais assertivo já refletiu-se nas suas relações com o Canadá, que já levaram à demissão do seu presidente Trudeau. Como parece que Trump tenha relegado o Canadá a parte da “América Latina”, sua política americanista já chamada de Doutrina Monroe verdadeiramente continental.
O Canal do Panamá demonstra que o principal objetivo desta atualização da Doutrina Monroe é expulsar a presença chinesa na região. Trump criticou o recém-falecido ex-presidente Jimmy Carter por ter cedido “tolamente” o Canal do Panamá e denunciou que este é atualmente fortemente afetado pela China, que controla dois dos cinco portos adjacentes ao canal: Balboa, no Pacífico, e Cristóbal, no Caribe.
Trump considera que a China transformou o Panamá num centro geográfico e comercial, posicionando-se estrategicamente para o avanço político, económico e militar – sendo que para o seu país é ” um bem nacional VITAL… devido ao seu papel fundamental para a economia e a segurança nacional” dos EUA. Trump denuncia o Panamá por retribuir a extraordinária generosidade que seu país lhe concedeu, cobrando tarifas ridiculamente altas aos navios americanos.
México já foi destino das agressões verbais de Trump por culpá-lo por males como as drogas e a imigração ilegal, que recebeu resposta correspondente por carta da presidente mexicana, Claudia Sheinbaum. A questão da imigração é fundamental para Trump para melhorar o nível de vida dos seus compatriotas sem alterar a natureza classista das políticas económicas, fiscais, sociais ou fiscais.
A ideia é que, simplesmente expulsando massivamente entre 15 e 20 milhões de trabalhadores ilegais, será possível melhorar as condições de vida dos “americanos” – com destaque para observar que, por isso, se entende fundamentalmente os de ascendência branca, prevalecendo uma política agressiva com descendentes latinos, africanos, indígenas e asiáticos.
Trump já apontava nesse sentido ao indicar que a recuperação da economia passaria pela redução de impostos e pela imposição de tarifas para, ao mesmo tempo, reduzir anualmente o déficit público e obter um crescimento real, ambos de 3%. Esta estratégia, que se chama as três setas, exigirá que os EUA continuem a importar ao mesmo nível para aumentar as receitas fiscais e aumentar as suas próprias exportações globais para não dependerem da emissão de dívida para financiar o déficit externo ou fiscal.
Neste cenário, a importância da América do Sul cresce quando se considera que se Trump impõe tarifas (25% aos seus vizinhos Canadá e México, além de 60% à China), estaria afetando aos seus principais parceiros comerciais no valor de 1 ,8 bilhões de dólares anualmente. Qualquer redução por razões econômicas ou retaliação terá impacto não só na cobrança de tarifas, mas em todo o projeto econômico de Trump.
A China tornou-se o principal parceiro comercial e econômico da maioria dos países da região, especialmente da Argentina, do Brasil, do Chile e do Peru. Na recente reunião do G-20 no Rio de Janeiro, a China anunciou 37 projetos com o Brasil, e embora não o tenha feito com a Argentina, o presidente Javier Milei mudou 180 graus o tom de confronto usado até então de que “não daria acordo com comunistas.”
Mas o acontecimento recente mais notável é a inauguração, em 14 de novembro, por Xi Jinping com a Presidente peruana Dina Boluarte, de um porto de 3,6 mil milhões de dólares em Chancay, no Peru – que, assim, se tornou o segundo maior receptor de investimento direto estrangeiro chinês na América Latina. Esse porto faz parte do corredor marítimo e terrestre sob o qual a China pretende unir-se à América Latina.
É um porto estrategicamente posicionado e tecnologicamente modernizado que permite à China o acesso ao cobre peruano, que foi inaugurado durante a cúpula da Cooperação Económica Ásia- Pacífico (APEC) em Lima, onde o presidente dos EUA, Joe Biden, é visto marginalizado da atenção que girava entre os mais de 20 países membros ao redor da China. Para muitos analistas, foi uma expressão da diminuição da influência dos EUA na América Latina. Para o Financial Times, um Biden marginalizado nas “fotografias da cimeira servem como metáforas para o eclipse dos Estados Unidos pela China na América Latina, uma região que Washington costumava chamar de seu quintal”.
A China tem feito grandes investimentos em infraestruturas a nível mundial. Estas construções em áreas como, por exemplo, portos, telecomunicações e instalações espaciais, são preocupantes para os EUA porque são consideradas de “dupla utilização”, uma vez que para além da sua dimensão comercial, poderiam também servir para operações do exército chinês, melhorando as capacidades de projeção de poder global de Pequim e vigilância ou neutralização de navios americanos. Além do Canal do Panamá, a China está presente no Mar do Caribe e na Antártida.
Além disso, a América do Sul poderia ampliar sua presença no BRICS+ e no projeto de desdolarização da economia mundial, que Trump já anunciou que buscará bloquear através de sanções. O Brasil é membro fundador dos BRICS, a Bolívia virou país- parceiro enquanto a entrada da Venezuela está sempre latente. Além do Peru, aparentemente, a Colômbia também poderia ser outro possível futuro membro com o seu presidente de tendência esquerdista, Gustavo Petro. Já a Argentina estava muito próxima de se associar ao grupo, movimento revertido pelo governo Milei.
A retórica de Trump está levando muitos analistas ressaltarem o interesse do novo governo dos EUA em reviver a bicentenária Doutrina Monroe. Entretanto essa perspectiva nunca deixou de existir para os Estados Unidos. Basta lembrar as expressões sistemáticas ao longo do Governo Biden por parte de Laura Richardson, chefe do Comando Sul que acaba de se aposentar, sobre a importância dos recursos naturais da região.
Em dezembro de 2019, Trump lançou o programa Growth in the Américas, que acabou deixando de lado devido a pandemia, que colocou o desafio de “facilitar a prosperidade e a segurança econômica, e um bom governo” tornando possíveis os investimentos de 100 a 150 bilhões de dólares em novos investimentos anuais em infraestrutura que a região necessita, colocando diversas agências do Governo dos EUA como principais financiadores.
O tom era próximo ao da “Boa Vizinhança” dos anos 30. Resta saber o que será desta vez. Mas o que está claro é que a América do Sul será um importante foco de pressão e interferência de Trump.
Andrés Ferrari Haines é professor Associado do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Faculdade de Ciências Econômicas da Ufrgs. Pesquisador do Núcleo de Estudos do Brics (Nebrics/Ufrgs). Este artigo publicado originalmente no Observatório Internacional do Século XXI, Nº 9, em janeiro de 2025.